2025
lista?
Olá! Feliz ano novo pra quem acompanha o Poliedral!!
Depois do último texto — uma edição de Arqueologia Digital sobre o fascismo na música eletrônica europeia que acabou virando quase um livro, e levou meses pra ficar pronto — e de um fim de ano bem puxado, resolvi começar 2026 de um jeito mais leve. Uma lista musical com coisas que eu gostei e descobri ao longo do ano passado.
Isso aqui não é Top 10, ranking nem lista de “melhores do ano”. Nunca curti muito essa lógica de decretar o que é bom ou relevante, ainda mais com o peso que esse tipo de lista tem quando é postado nas mídias maiores. Entendo a importância disso pros artistas, mas sempre achei meio estranho esse poder concentrado de decidir o que importa ou não.
A ideia aqui é outra. Algo bem solto e honesto. Compartilhar álbuns e sons que vieram de pesquisas pessoais, de nichos mais fundos, que dificilmente aparecem nessas listas — e que, pra mim, foram algumas das coisas mais interessantes que descobri em 2025. Sem ordem, sem hierarquia, sem seguir linha de gênero nenhuma. Só algumas coisas que eu achei legal listar.
Plumasdecera (Artista)
Eu sempre tive um pé ali no trap (querendo ou não) — tanto produzindo quanto escutando — muito por ter passado bastante tempo infiltrado nessa cena underground do SoundCloud desde os primórdios, principalmente na cena brasileira. Isso quando eu atuava sob os pseudônimos Vó1d e Arizona4k lá em 2014. Por causa disso, acabo esbarrando em muita coisa nova dessa cena via repost de amigos desse nicho, perfis pequenos que sigo há anos + pesquisas meio obsessivas no Soundcloud. E uma das melhores descobertas que fiz no ano passado dentro desse meio do trap underground foi a Plumasdecera através da track “Jardim”.
Quando ouvi essa música dela pela primeira vez, a reação foi imediata: pqp, isso é muito foda, parece uma ref de Bossa Nova, mas tem influência de Pluggnb, mas na verdade isso por algum motivo me soa mais como um Shibuya-kei brasileiro??? Não no sentido literal, óbvio, não existe Shibuya-kei Brasileiro, mas naquela sensação muito específica de estética, flow e energia. Tudo ali me soou familiar de um jeito estranho — algo que remetia a esse território do J-pop, a um certo pop asiático urbano, mas também a uma lógica musical que vai muito além de referências diretas.
Muita gente compara ela com PinkPantheress, e faz sentido até certo ponto. Mas, como alguém que escutou Shibuya-kei e J-pop até cansar e ser declaradamente viciado nesse tipo de som, eu acabo identificando muito mais essa semelhança. O Shibuya-kei foi um microgênero que surgiu no Japão nos anos 90, principalmente em Tóquio, naquele circuito Tower Records e HMV, e que se caracterizava por misturar bossa nova, jazz leve, lounge, pop francês e música eletrônica, se misturava também em referências ocidentais diversas dentro de um formato pop extremamente estilizado. Era uma música de colagem, de curadoria, de cut and paste cultural — cosmopolita, urbana e, ao mesmo tempo, muito lúdica.
Artistas como Pizzicato Five, Capsule, Cornelius, 500 cherries, Fantastic Plastic Machine e, mais tarde, projetos como Serani Poji, trabalhavam essa ideia de pop como objeto cultural híbrido. Não era só sobre o som, mas sobre atmosfera, estética e leveza. Vocais suaves, refrão cantadinho, às vezes quase falados, melodias simples e fofinhas mas extremamente grudentas, grooves e synths relaxados que se misturavam aos violões e os pianos e plucks, e uma produção que nunca parecia pesada — tudo isso fazia parte da identidade do gênero.
E é exatamente aí que Plumasdecera me pega.
Mesmo com essa semelhança ao Shibuya Kei, ela carrega uma brasilidade muito clara — algo que lembra nossa relação natural com melodia, balanço e claramente com a bossa nova e o MPB (que, vale lembrar, foi uma influência enorme dentro do próprio Shibuya-kei, os japoneses são viciados em artistas Brasileiros). Ao mesmo tempo, o flow dela tem esse ritmo específico, soa muito diferente e original, esse jeito de encaixar a voz que lembra muito cantoras japonesas e algumas vezes lembra alguns sons do New Jeans, mas isso é normal, já que o K-pop veio depois do J-pop e mega influenciado dele, eles tem essa semelhança com essa cadência muito fofa, algumas vezes da uma sensação de parecer meio música infantil, as vezes de openings de animes do gênero Slice of Life, aquela coisa mais tranquila e agradavel, parece que você está ouvindo uma figurinha de Miffy do Dick Bruna, ouvindo um Matcha Latte bem gelado. E quando falei infantil não é no sentido de ser algo bobo ou imaturo, é que tem um clima mais leve que remete a uma coisa menos “suja”, porém no caso da Plumasdecera, ela tem esse ar mais calmo, mas é extremamente precisa nas letras, e tem o lado Trap (Pluggnb) da coisa, inclusive tendo vários feats com o Big Rush que ai muda tudo. Então é difícil descrever tecnicamente, é fofo, é romantico, mas ai as drums são de trap, tem um 808 ali, tem as melodias de R&B trazidas pelo Pluggnb, mesmo que de um jeito “smooth”, mas isso da uma pitada de fogo na parada.
Aqui também entra um paralelo que, pra mim, é muito direto: Frenesi & Otomesha, especialmente na faixa CLOUD BOSSA, do projeto フレネシ. Essa música carrega exatamente essa mistura de bossa nova filtrada por uma sensibilidade pop japonesa, com vocais delicados, atmosfera etérea e uma sensação de leveza urbana — quase como se a música estivesse flutuando pela cidade. Não é uma bossa “tradicional”, mas uma bossa imaginada, reinterpretada, transformada em textura e clima que me lembra muito a faixa “Jardim”. Esse tipo de abordagem conversa diretamente tanto com o Shibuya-kei quanto com o que a Plumasdecera faz hoje.
Serani Poji, CAPSULE, AAAMYYY e Mondo Grosso, seguem sendo ótimos pontos de referência aqui também: projetos que misturavam eletrônico, bossa nova, pop retrô e estética kawaii. Tudo soa leve, colorido e despretensioso, mas muito bem pensado. A força vinha justamente da liberdade de misturar referências sem a necessidade de soar “importante”. Vejo a Plumasdecera operando num lugar parecido, é impossível não traçar esse paralelo.
Acho que a track em que mais senti essa aproximação com o lado da música asiática foi “Se entregar”, faixa que só encontrei no SoundCloud. Principalmente nas partes em que ela começa a estender os versos — aquele vibrato num tom muito específico, com autotune — é genial. O flowzinho também ajuda. Tem muita coisa ali que me remete aos sons dessa parte do mundo.
E o mais interessante é que não soa como cópia crua de gênero nenhum. Dá pra perceber que o estilo dela é próprio, cheio de micro particularidades. Em pequenos detalhes aparecem ecos de bossa nova, R&B, pluggnb, shibuya-kei, K-pop, J-pop… mas nada disso se impõe a ponto de virar pastiche. Não dá pra chamar de cópia — pra mim, é algo realmente novo de ouvir, e talvez por isso eu tenha gostado tanto.
Ela parece absorver influências globais, filtrar tudo por uma identidade muito pessoal e devolver isso como um trap leve, com um pouco de pop, extremamente cativante e grudento. Música de conforto. E talvez nem exista, de fato, essa referência direta que eu tô teorizando aqui — pode ser só projeção minha, sem nenhuma intenção consciente de soar assim.
Por isso, quando digo que Plumasdecera parece soar como um Shibuya-kei brasileiro, não é força de expressão. É só essa sensação de um cosmopop, música feita por alguém que escuta o mundo inteiro, mas canta a partir de um lugar muito específico.
Viktor Vercetti - RIO TRAP MUZIK (Mixtape)
Já que comecei pelo meio do submundo da bolha trap underground, vou continuar já pegando o gancho da última mixtape lançada pelo Viktor Vercetti, Rio Trap Muzik, dropada já no finalzinho de 2025. Pra mim, foi facilmente um dos pontos altos do ano dentro desse cenário underground. E sim, eu sei que meu olhar aqui pode ser meio tendencioso e até meio clubista: eu já produzi uma faixa pra ele e participei de uma mixtape no passado, acompanho o trampo há anos e sempre curti muito a sonoridade que ele construiu. Mas acho que justamente por isso consigo perceber com mais clareza o quanto esse trabalho é especial.
O Viktor é um artista do underground que veio de nichos muito parecidos com os meus. Antes de tudo, ele era gamer, player de Call of Duty, gravava vídeos de trickshot, acompanhava a comunidade de edits — um universo muito específico da internet dos anos pós 2010 que moldou toda uma estética visual e sonora. Eu me identifico muito com isso. Ele é cria do Morro do Chapadão, no Rio de Janeiro, mas ao mesmo tempo sempre foi muito nerd: entende profundamente de trap, conhece a história do gênero, suas ramificações, suas fases. E é justamente essa combinação de vivência de rua com pesquisa obsessiva que faz a música dele funcionar tão bem.
Em Rio Trap Muzik, o que mais me impressionou foi a capacidade dele de resgatar uma wave antiga dos primórdios do trap além do “Glo”, aquela estética crua, direta e pouco polida do começo de 2012. Dá pra sentir claramente referências a Gucci Mane da era das mixtapes, Chief Keef no auge do Drill de Chicago, 808 Mafia, Waka Flocka Flame e até aquele clima mais pesado e monolítico das primeiras tapes do Rick Ross, quando o trap ainda tinha muito mais cara de rua do que de indústria.
A diferença é que o Viktor não faz isso como revival vazio ou nostalgia estética. Ele traduz essa linguagem pra uma identidade brasileira e, principalmente, carioca. Isso aparece nas gírias, nas rimas, na forma de narrar o cotidiano, na escolha dos beats e até na estrutura das faixas. Um exemplo muito forte disso é quando ele usa tags clássicas de mixtape, como as do Trapholics, remetendo diretamente à era em que o trap circulava em CDs piratas, blogs e fóruns, muito antes do streaming engessar tudo. Esse detalhe sozinho já mostra o quanto ele entende o que está fazendo.
Outro momento que deixa isso ainda mais claro é a faixa “OMG”, onde ele sampleia os synths de “Meiga e Abusada”, da Anitta. E isso não é só um easter egg ou uma piada interna. Esse sample funciona quase como uma declaração estética, ele pega um clássico do pop carioca dos anos 2010 e reposicionar ele dentro de um contexto de trap cru, sujo, de mixtape. É exatamente esse gesto que explica muito bem o que o Vercetti faz — adaptar referências globais e locais, sem hierarquia, e transformar tudo em algo que só poderia ter nascido no Rio de Janeiro.
Outro detalhe que reforça muito essa lógica de tradução cultural é a faixa “TOTA”, onde o Viktor faz referência direta ao streamer TOTA, também cria de favela do Rio. Essa citação não é gratuita. O TOTA hoje circula com rappers famosos, frequenta espaços antes completamente inacessíveis pra quem vem da periferia e chegou até a aparecer ao lado do Kai Cenat, um dos maiores streamers do mundo atualmente. Quando o Viktor cita o TOTA, ele está falando de mobilidade social, de visibilidade e de novas formas de protagonismo periférico na era da internet.
Assim como o trap americano sempre citou figuras locais, hustlers, DJs, produtores e personagens da cena pra mapear seu território social, o Viktor faz o mesmo aqui — só que atualizado pra 2025 e 2026, onde streamers, gamers e criadores de conteúdo também são símbolos de ascensão e poder cultural. Isso conecta diretamente com o universo dele e com a geração que ele representa.
No fundo, Rio Trap Muzik funciona como um documento. Não é só uma mixtape de trap, é como se fosse um retrato de uma cena, de um tempo e de um lugar. Do sample da Anitta à referência ao TOTA, passando pela estética de mixtape clássica, tudo ali aponta pra alguém que entende profundamente o gênero que escolheu trabalhar e sabe exatamente como dobrar essas referências pra uma narrativa própria.
O que o Viktor Vercetti faz aqui é muito parecido com o que os grandes nomes do trap fizeram no começo: narrar o presente usando as ferramentas do gênero, sem tentar soar sofisticado ou “importante”. É cru, direto, às vezes até caótico — mas extremamente honesto, tem letras que eu nem curto tanto pra falar a real, mas acho bem original. E talvez seja justamente isso que esteja faltando em boa parte do trap mainstream hoje.
Rio Trap Muzik não é trap feito no Brasil tentando imitar o que vem de fora. É trap pensado a partir do Rio de Janeiro, da favela, da internet, dos games, dos streamers e das novas dinâmicas de circulação cultural. Isso dá um peso enorme pro projeto.
obscure mid 2000s japanese blog post (Artista)
Essa foi uma ótima descoberta que fiz em 2025. Um perfil no SoundCloud com menos de 300 seguidores, músicas estranhas, difíceis de classificar. Algumas coisas vão mais pra um trip-hop torto e atmosférico, outras encostam num boom bap classicão mas bem fora do padrão, outras pra um lado percursivo mais experimental que podem até lembrar um juke, mas muita coisa ali simplesmente não dá pra rotular direito. E isso é justamente o charme. Pra mim, praticamente todas as músicas desse projeto são absurdamente boas.
O que mais me pega nesse projeto é como ele trabalha as baterias. Não é só beat bem feito — tem um cuidado muito grande com percussão, com os detalhes, com os vazios. Os synths são lindos, a atmosfera é sempre muito bem construída, mas as drums têm algo especial, meio hipnótico. Esse foi um dos perfis que mais ouvi ao longo de 2025. Virou música de conforto real. Eu dava play no perfil inteiro e deixava rolando enquanto trabalhava, ele me lembrou muito o artista ATIVAN COREA aka YAYIYAYA que infelizmente teve seu perfil excluido no ano passado. Mas é doido que a música do obscure mid 2000s japanese blog post Tem uma sensação muito específica ali, de internet antiga, de algo familiar e acolhedor, mas que eu não sei explicar direito.
Depois descobri um texto escrito pelo próprio artista e tudo começou a fazer ainda mais sentido. O projeto Obscure mid 2000’s Japanese blog post nasceu em 2023, quando o Julian Durbin acabou caindo, meio por acaso, num blog japonês de moda enquanto procurava imagens pra capa do SoundCloud dele. Isso virou uma obsessão. Ele começou a explorar a fundo a blogosfera japonesa dos anos 2000 — blogs pessoais, cheios de fotos, textos longos, diários visuais, coisas muito íntimas (hobby que eu também costumo fazer com muita frequencia, waybackmachine eu te amo). Um tipo de internet que praticamente não existe mais.
Ele conta que passava horas pulando de blog em blog, tirando screenshots, traduzindo textos, lendo posts antigos, salvando imagens. Um trabalho quase de arquivo mesmo, de preservar coisas que, se ninguém fizer nada, simplesmente desaparecem. E é real: essa ideia de que “tudo fica na internet pra sempre” não se sustenta. Um monte de coisa já sumiu, e vai continuar sumindo. O projeto nasce muito dessa vontade de guardar esses pedaços de internet antes que eles se percam de vez.
Em junho daquele mesmo ano, com uma pasta gigante cheia de imagens salvas, ele criou esse perfil novo e começou a postar faixas que não entravam no projeto principal, sempre acompanhadas de uma imagem desses blogs japoneses. Mas isso nunca foi sobre postar sobra ou música descartável. Pelo contrário: com o tempo, ele mesmo percebeu que gostava mais de vários desses beats do que dos que saíam no perfil principal, tipo quando eu comecei com ICQ BABY, me identifico bastante. E dá pra sentir isso ouvindo — nada ali soa como rascunho.
Acho que é essa combinação que torna tudo tão especial: música feita sem pressão, com calma, ligada a imagens de uma internet mais lenta, mais pessoal, pré-algoritmo. Escutar esse projeto me dá a sensação de abrir um blog antigo salvo nos favoritos, ou achar uma pasta perdida no HD cheia de coisas que você nem lembrava mais. Se isso tivesse aparecido na minha adolescência, eu provavelmente estaria ouvindo escondido, sem contar pra ninguém, naquela fase meio boba de achar que música boa precisava ser guardada a sete chaves. Hoje não penso mais assim. Quando algo é bom de verdade, dá vontade de mostrar.
O lado agridoce é saber que o próprio artista sente que esse projeto chegou ao fim e que ele pretende arquivar tudo no Internet Archive. Mas, no fundo, isso combina totalmente com a proposta. Nada ali parece feito pra durar pra sempre. É mais sobre capturar um momento, uma sensação, e deixar isso existir enquanto faz sentido. Talvez seja exatamente por isso que esse projeto soe tão honesto, tão confortável e tão especial pra mim.
MC PELÉ JHONSON - MEDLEY PROIBIDÃO [[ MEEK DA ESPANHA ]] 2025 (Medley)
Isso que o MC Pelé Jhonson entregou em 2025 é absurdo em tantos níveis que eu nem sei explicar direito. Ano passado eu escutei esse medley praticamente todos os dias, a ponto de ele virar uma espécie de trilha sonora fixa, na verdade até hoje quando eu to no banho eu to cantando alguma música desse Medley. Tanto que tem um episódio de Arqueologia Digital focado em funk proibidão em que eu faço questão de dar destaque total ao Pelé Jhonson, porque ali tem uma criatividade bruta muito diferenciada acontecendo em tempo real.
O medley tem quase 20 minutos e funciona como um fluxo contínuo, sem pausa, sem respiro óbvio. É praticamente uma sequência infinita de interpolações, a maioria puxada do pagode, daquele repertório anos 90 e 2000 que todo mundo conhece de ouvido, mesmo sem saber exatamente de onde. Você escuta e reconhece na hora, mas o contexto muda completamente quando isso cai dentro do proibidão.
Tem várias passagens em que ele estica os versos de um jeito muito específico, puxando melodias que interpolam Glória Groove, Ferrugem, Oruam, e vários outros artistas do Rio de Janeiro, essas linhas vocais longas, emotivas, quase choradas. Só que aqui elas aparecem atravessadas por um discurso cru, violento, explícito. Esse contraste é o que deixa tudo tão forte. Nada ali é referência jogada, não é piada interna. Ele entende exatamente onde segurar a nota, onde alongar a frase, onde deixar a voz carregar a música sozinha.
O único MC que eu via fazer algo parecido nesse nível era o Mascote, mas o Pelé Jhonson vai além por um motivo muito simples: ele tem uma voz absurda. É muito diferente ouvir um MC de funk com esse timbre, esse controle e essa presença. Ele canta de verdade. Não é só entonação falada, não é só carisma. Tem domínio vocal ali.
O que eu acho mais foda é que ele não usa interpolação como muleta. Ele usa como linguagem. Às vezes ele pega só o desenho melódico do pagode, às vezes a emoção, às vezes aquele clima romântico meio sofrido, e transforma isso em outra coisa dentro do proibidão. Cada referência vira matéria-prima pra construir algo novo.
No fim, eu nem sei falar disso de forma totalmente racional, porque sou realmente muito fã. É um daqueles trabalhos que você sente antes de entender, e quando começa a entender, só respeita ainda mais.
Oklou - what’s good (Track)
Ano passado a Oklou lançou o álbum Choke Enough, mas ele não bateu muito pra mim. Acabei gostando de uma faixa só, “plague dogs”. Aí, quase no final do ano, saiu o deluxe que eu também não curti muito mas ai foi quando dei de cara com “what’s good” numa versão regravada.
Essa música originalmente tinha sido postada seis anos atrás numa conta antiga, o projeto avril23, que eu acho que ela até perdeu a senha. Foi justamente esse projeto que me fez admirar muito a Oklou como producer. Essa versão nova, mais polida, de “what’s good” bateu forte pra mim — talvez porque eu já fosse muito fã da faixa desde a época em que ela apareceu só como snippet, lá atrás. Deu até a sensação de que a versão antiga era quase um “teste” do que a música viria a ser de verdade.
Inclusive, um tempo atrás, no projeto 177th, eu cheguei a fazer uma espécie de mashup usando “what’s good” na versão avril23, quando percebi que uma música do Lil Uzi Vert, “Mama I’m Sorry”, tinha um flow muito parecido com o da Oklou — e ainda saiu bem depois. Na época, cheguei a teorizar que o Lil Uzi talvez escutasse avril23, mas sei lá… hoje acho que foi só coincidência mesmo.
MC Lan - Dark Matter ft. Bladee, DJ Blakes (Track)
Isso aqui me pegou completamente desprevenido. Sendo bem sincero, fui escutar o último álbum do MC Lan com zero expectativa de que sairia algo masterpiece dali. E isso vem muito de um cansaço pessoal mesmo, final do ano eu tava cansado de música. Porém eu sempre fui um grande fã do Bladee, acompanhei desde Carwash, Gluee, Eversince, toda aquela fase mais nebulosa, introspectiva, quase etérea da Drain Gang / SBE. Mas, nos últimos anos, eu já nem estava mais escutando nada do que ele vinha lançando — não por birra, mas porque simplesmente não estava mais batendo em mim da mesma forma, não só ele como a maioria ali dos Year001, mas ai vi que o MC Lan um artista Brasileiro do Funk, tinha dois feats com o Bladee no seu novo Alubm, então fui conferir.
Aí chega Dark Matter.
Eu escutei tudo e não gostei do álbum inteiro V3NOM do MC Lan, pra ser honesto, não bateu muito pra mim, mas os dois feats com o Bladee são ótimos na minha visão — e diria sem exagero que ele tem um papel enorme em salvar o projeto nesses momentos, principalmente nessa faixa. O Bladee aqui soa inspirado de um jeito que eu não escutava há um bom tempo, talvez porque o pessoal ali dessa cena suéca muitos anos atrás já eram grandes fãs do MC Bin Laden e do Funk no geral. Então parece que ele veio mais inspirado, o flow dele está absurdo, muito afiado, e me remete direto às fases mais antigas da carreira, quando ele conseguia ser estranho, melancólico e agressivo ao mesmo tempo, sem parecer forçado.
O refrão do MC Lan, cantado em inglês, funciona de um jeito inesperado. Poderia facilmente soar estranho ou deslocado, mas encaixa muito bem dentro da atmosfera da música. E a produção — que eu descobri depois ser assinada pelo DJ Blakes — é outro ponto alto: uma mistura boa de industrial, metal e funk, criando uma textura densa, quase sufocante, mas extremamente eficaz, é bem mais experimental que qualquer som do último album do Matuê. Não é uma fusão inédita — projetos como o SEXCORP já exploram esse território há tempos — mas aqui o combo todo funciona de um jeito muito específico.
O que me pega em Dark Matter é justamente isso: não é só a soma das partes. É o clima. É a sensação de algo meio hostil, meio emocionalmente carregado, é um som estranho onde o Bladee entra como uma entidade deslocada, mas perfeitamente encaixada ao mesmo tempo. Ele traz aquela estética fria, quase alienada, que sempre foi marca da Drain Gang, enquanto o MC Lan ancora a faixa num lugar mais físico, mais bruto.
No fim das contas, essa música foi uma surpresa real pra mim. Não só por ter vindo de um álbum do qual eu não esperava muita coisa, mas porque me fez voltar a prestar atenção no Bladee depois de um tempo meio afastado. Só por isso, já merecia estar aqui.
dj interior semiotics - samantha james deep surprise dipset trance rmx (Track)
Algumas coisas sinceramente nem pedem texto. Isso aqui é uma delas. Acho que o melhor é só dar o play e sentir.
Oli XL - Lick The Lens – Pt.1 (Album)
Depois de seis anos sem lançar um álbum, EP ou qualquer coisa do tipo, finalmente saiu Lick The Lens – Pt.1, do Oli XL. Quando eu vi que isso tinha sido lançado, eu literalmente postei um “#PJL Lili cantou”, porque quem acompanha sabe que o mano ficou anos preso num contrato bizarro com a Warp Records, cheio de problema, música engavetada, aquele padrão bem merda da indústria. Eu torcia muito pra chegar o dia em que ele pudesse voltar a lançar som pro mundo.
E não é exagero dizer que o Oli talvez seja o artista que eu mais toquei como DJ na vida. Principalmente coisas do projeto alternativo dele, o Chastic Mess, que pra mim não tem uma música ruim sequer e já é clássico absoluto do deconstructed club e eu sempre enfiava em algum set meu. Sempre fui muito atraído pelo lado mais estranho dele, pelas percussões tortas, agressivas porém clean.
Meu favorito dele continua sendo o Album Rogue Intruder, Soul Enhancer. Aquela mistura de grime, jersey club, grooves de vogue, tudo atravessado por synths micro, glitchados, aquela estética deconstructed club raiz, com as melodias meio malvadonas e futuristas ao mesmo tempo.
Agora, em 2025, ele voltou diferente. Dá pra sentir que ele deixou um pouco esse lado mais extremo de lado e resolveu explorar uma face mais pop. E, honestamente, eu curti muito. Uma coisa que eu sempre admirei no Oli é como ele tem uma identidade sonora muito bem construída. Visual também. Mesmo quando ele faz um som mais acessível, com mais vocais, mais feats, dá pra reconhecer que aquilo é Oli XL só de ouvir.
A mix dele é muito característica. Tudo soa cristalino, ultra HD, quase minimalista, mas ao mesmo tempo cheio de micro detalhes. Automações absurdas, cada partícula do som parece pensada e polida com lupa. E sinto também que a parte vocal e as letras evoluíram bastante. Tá tudo muito bonito, agradável, chiclete mesmo, sem soar vazio.
No fim, parece um retorno maduro. Não é ele tentando repetir o passado nem forçar experimentalismo. É alguém que passou por muita coisa, ficou anos calado à força, e agora volta mais confortável com a própria linguagem. Um pop estranho, refinado, com cara de Oli XL do começo ao fim.
THE BOX MEDLEY 10 - Parte do Pedrin & JS da Torre (Track)
Ano passado eu escutei muito trap, então seguindo nessa linha queria falar do The Box Medley 10, que foi muito bom e quando saiu me fez parar e prestar atenção de verdade na galera do Pavuna REC, principalmente no Pedrin e no JS da Torre. Não foi algo racional, do tipo “analisando referências” ou “entendendo conceito”. Foi mais instintivo mesmo. Soou certo e muito bem de primeira.
O que me chamou atenção no Pedrin foi a energia. Antes mesmo de saber quem ele era ou como ele se apresentava visualmente (escutei a primeira vez sem ver o clipe), só pela voz já deu aquele impacto imediato. Tem algo no flow dele que é meio fora de controle, meio bruto, que me lembrou muito o Lil Jojo e aquela fase mais suja do drill de Chicago, quando o som parecia quase proibido, perigoso, sem filtro. Não no sentido de copiar, mas naquela sensação de urgência, de alguém que está cuspindo aquilo ali sem muita preocupação em refinar, mesmo ele sendo um mano branquinho com estilo que parece dos antigos “Playssons” do rio de janeiro, aquela galera que ouvia Bonde da Stronda, surfista, loirinho e tal, é engraçado ver como essas coisas se misturam no suburbio.
O JS da Torre me pegou por outro caminho. A voz dele tem um peso diferente, mais arrastado, mais carregado, e me lembrou bastante o Kodak Black, principalmente na forma como ele segura o tempo e joga as palavras. Não é um trap cheio de técnica ou firula, mas tem presença. Você escuta e entende que aquele cara sabe ocupar o espaço do beat, mesmo sem parecer que está tentando provar algo.
A diferença deles pros outros rappers do Rio é bem clara. O trap do Pedrin e do JS da Torre me passa uma sensação bizarra de que eles não tem medo de nada, embalados, parece menos pensado, menos calculado, mais cru, rebeldia pura. E é justamente isso que faz funcionar. Tem algo ali que lembra muito o começo do drill de Chicago e acho que é justamente isso, naquela época era um rapper mais embalado que o outro falando de crime nas músicas, quando o som ainda não tinha virado um produto, quando parecia mais um registro direto de vivência do que um projeto musical no sentido clássico.
Os beats que eles usam reforçam isso. Nada é muito polido, nada muito limpo. Tudo soa meio torto, pesado, com aquela sujeira que dá identidade. E talvez isso me conecte ainda mais por eu ser carioca, por reconhecer as gírias, o jeito de falar, a adaptação desse imaginário estrangeiro pra uma realidade completamente local.
No fim, o The Box Medley 10 me chamou atenção porque carrega uma identidade antiga do trap do Rio. Soa como um recorte cru de um momento, de um lugar, de uma energia específica e os dois primeiros Pedrin e JS se destacaram muito. Pra mim, esse tipo de trap ainda é o que mais bate. Todos eles ali são produtos do meio onde vivem, cantando a própria realidade e traduzindo em música a energia do que acontece ao redor.
zerofault - atNite , zero + ghastly [bear vocals] #jc
Mais um da série que quase dispensa texto. É só dar play e sentir — sei lá, ve se bate aí também. Pra mim bateu forte. Acho que foi a primeira vez que ouvi um piano de jazz se encaixar tão bem num groove de jersey club, de um jeito realmente gostoso de ouvir. Definitivamente uma das tracks de 2025.
Rooster - Rooster Slipped (Album)
Gud aka Rooster, é um dos poucos nomes desse circuito Year001 / Drain Gang / SBE que eu ainda faço alguma questão de acompanhar. Muito disso vem do fato de ele ter sido uma das minhas primeiras influências quando comecei a produzir. Eu vi de perto o crescimento dele, acompanhei desde quando tinha só 2k followers no SoundCloud, porque de certa forma a gente veio da mesma comunidade, do mesmo caldo cultural que surgiu ali no começo da década passada.
Deixo claro desde já que isso aqui é ta mais pra clubismo e gosto pessoal. Esse disco pode soar péssimo pra muita gente — a nota baixa no Rate Your Music tá aí pra provar — mas como falei antes, eu não ligo pra nota, avaliação, nada, música não é um produto ou um serviço que eu preciso me basear em review pra tirar conclusões. É bem simples, se bate bem pra mim, na minha cabeça é bom, então vou falar do Rooster Slipped, Album lançado em 2025 pelo Rooster, alter ego do Gud (Yung Gud).
Na minha visão o Gud sempre foi um produtor lendário. Ele moldou uma geração inteira do SoundCloud e do underground, inclusive eu. Foi responsável por grande parte do som que definiu Yung Lean, Ecco2k e toda a órbita da Sad Boys / Drain Gang que hoje é base pro 2hollis, fakemink entre outros novatos. Muito do uso de synths etéreos, pads atmosféricos e melodias pouco óbvias no trap passa diretamente por ele. Muita coisa que hoje parece padrão no Trap já foi algo mega estranho e diferente e nasceu ali daquela cabeça.
Quando ele lançou o primeiro projeto como Rooster, eu não curti. Não consegui nem ouvir tudo. Como produtor ele sempre foi absurdo, mas cantando soava deslocado, como alguém ainda procurando o próprio lugar. Já no Rooster Slipped, a sensação foi outra. Pela primeira vez, senti essa persona muito mais confortável nas rimas. As letras me pegaram justamente por partirem desse lugar de um beatmaker/produtor musical que teve sucesso muito jovem e agora olha pra própria trajetória com mais maturidade e conflito. Várias faixas falam de sentimentos que eu mesmo já vivenciei parecido, e isso criou uma conexão imediata.
O ponto mais alto do disco, pra mim, é a produção. Mesmo nos beats mais minimalistas, a identidade dele está toda ali. Delicadeza, melancolia, camadas sutis, elementos quase orquestrais que respiram junto com a música. Em termos de produção, eu considero esse álbum praticamente um masterpiece — especialmente o beat de “The Slip’n’Fall (E₂ Fix)”, feat com o Ecco2k, que é coisa de arrepiar.
Nos vocais, ainda acho que ele tem espaço pra evoluir, mas isso não diminui o peso desse trabalho. Pelo contrário. Existe algo muito honesto ali, alguém começando de um lugar novo, sem repetir fórmulas antigas ou tentar agradar expectativas.
No fim, Rooster Slipped foi um dos discos de fora que mais me marcaram no ano passado e me inspirou muito. Talvez justamente por vir de alguém que acompanho há muito tempo e que tem mais ou menos minha idade, e é legal ver que agora ele soa diferente e mesmo com uma pegada nova, arriscando novos horizontes, eu ainda consigo me identificar com algo, não é um daqueles artistas que ficou só como referencia do meu passado, ele ta mais maduro e mais consciente do próprio lugar.
Mesmo num momento em que eu ando cada vez menos interessado em referências do Norte Global, o Gud ainda consegue me fazer parar, escutar e prestar atenção, é como se fosse um velho professor.
Wickedpedia (Artista)
Bom, isso aqui também acho que nem precisa de muito texto. O ideal mesmo é entrar no perfil e olhar de perto. A ideia é genial. Eu não faço a menor ideia de quem tá por trás disso, tem 22 seguidores só, e é absurdamente insano.
Aquilo entra direto na comunidade de producers da nova geração de footwork/juke, só que levado pra um lado totalmente experimental. É muito foda de acompanhar. Fora o uso das imagens de páginas mega estranhas da Wikipédia, que já dá outra camada estranha e divertida pra coisa toda.
No fim, a experiência real é essa: entrar no perfil e ir scrollando infinitamente as músicas. Uma depois da outra, sem entender direito onde começa ou termina. É aí que a parada acontece.
Oruam (Artista)
O Oruam foi definitivamente um dos grandes destaques de 2025, querendo ou não, gostando ou não. Isso é inegável. Fazia muito tempo que eu não via um artista com esse nível de relevância real, de mover massas mesmo, não só engajamento de internet. No Rio, em qualquer favela, qualquer menorzinho vai saber quem ele é, vai ter ele como referência. Basta olhar pra rua. A quantidade de moleque de cabelo vermelho depois que ele puxou essa estética diz muito mais do que qualquer métrica de streaming.
Dito isso, sendo bem sincero, eu não gosto de várias atitudes dele. Acho muitas coisas imaturas, mal resolvidas, confusas, muito emocionado. Mas, ao mesmo tempo, eu consigo enxergar no Oruam um potencial gigantesco. E esse potencial não é artístico só, é histórico e político.
Pensando a partir de um ideal marxista-leninista negro, a gente precisa entender uma coisa básica, que nem toda liderança popular nasce pura, consciente ou ideologicamente pronta. Ela muitas vezes nasce contraditória, atravessada por sobrevivência, ego, erro, violência estrutural e ausência total de formação política. O Oruam é produto direto da favela, da criminalização do corpo negro, da guerra às drogas, da lógica punitiva do Estado burguês. Ele não é exceção, ele é consequência.
E talvez seja exatamente por isso que ele seja hoje o único artista mainstream com uma atitude realmente punk no sentido original da palavra. Não punk como estética, mas punk como ruptura, como ameaça à ordem. Ele é um dos poucos que, se quisesse, teria poder real de mover massas pra rua, de mobilizar juventude preta, periférica, trabalhadora. Isso não é pouca coisa. Isso é algo que o sistema teme profundamente.
Não é coincidência que a extrema direita tenha se organizado tanto contra ele. O cara conseguiu algo raríssimo, fizeram uma lei com o nome dele. Isso por si só já diz tudo. Foi preso, saiu, seguiu em frente, continuou relevante. Isso é perseguição política disfarçada de moralismo. Quando o Estado cria um inimigo simbólico, quase sempre é porque aquele corpo representa risco de contágio, de exemplo, de identificação coletiva.
Musicalmente, muita gente pode torcer o nariz, mas quem entende de trap sabe: o Oruam sabe fazer trap. Ele é um daqueles casos clássicos de “ame ou odeie”. Ele entende melodia, entende uso de autotune, sabe construir uma linha vocal que gruda. Ele tem muito daquela wave melódica que o Melly dominava, essa coisa meio etérea, meio emocional, mas ainda agressiva. As letras são boas, funcionam dentro da proposta, falam com quem ele precisa falar.
Não é à toa que eu mesmo já sampleei o vocal dele no som FOTINHA do ICQ BABY, e ainda acabou entrando na lista The Best Electronic Tracks of 2000-25 da Resident Advisor. Não sou fã de carteirinha, não idolatro, não romantizo. Mas respeito. E acho que ignorar o impacto dele é um erro grave.
A música “Lei Anti Oruam” é um ótimo exemplo disso tudo. Mesmo sem aprofundar o peso histórico absurdo que existe por trás desse nome, é uma música muito bem feita. Melodia vocal absurda, autotune muito bem usado, beat funcionando perfeitamente. É uma faixa que comunica.
O Oruam é contraditório, sim. Mas contradição não é defeito, é ponto de partida. A pergunta nunca deveria ser “ele é perfeito?”, mas sim: o que pode ser construído a partir da influência que ele já tem? Porque potencial pra dar voz ao povo da favela, ao trabalhador preto, à juventude criminalizada, ele tem de sobra. E talvez seja exatamente isso que incomode tanto.
E vale lembrar também que o Oruam furou a bolha nacional. Ele saiu na revista Dazed, uma das publicações de moda e cultura mais importantes do mundo, e isso por si só já gerou um bafafá enorme, fora que o Drake e vários outros artistas são fãs assumidos dele. Nesse lance da Dazed teve muita treta, teve desconforto, teve debate interno até dentro da Osklen, marca que sempre tentou se posicionar como “progressista”, mas que entrou em curto quando a imagem de um artista tão ligado à favela, à criminalização e à contradição virou símbolo global.
Aquilo movimentou o X por dias. Não foi só hype. Foi discussão real sobre quem pode ocupar certos espaços, quem pode representar o Brasil lá fora, quem é considerado aceitável quando o corpo é preto, periférico e indisciplinado. De novo, o Oruam virou campo de batalha simbólico, e isso diz muito mais sobre o sistema do que sobre ele.
No fim das contas, é isso, quando um artista gera esse nível de ruído, de reação, de incômodo, é porque ele toca em algo estrutural. E o Oruam, com todas as contradições, toca nesse local.
☕️ GAS STATION COFFEE ☕️ - i still don't believe that the Universe is mean. (Album)
No ano passado, além de ouvir muito trap, acabei mergulhando fundo no footwork que ta ali do lado já, e também no juke, especialmente fuçando a comunidade underground de produtores no SoundCloud. Foi nesse garimpo que encontrei um perfil chamado GAS STATION COFFEE. Na época, devia ter algo em torno de 150 seguidores, pouquíssimos streams, nenhuma foto de perfil, zero informações sobre quem era a pessoa por trás do projeto e nenhum link para redes sociais. Um perfil que, à primeira vista, você simplesmente pode acabar ignorando, me lembro de vi notificações dessa pessoa curtindo umas coisas que fiz como DJ LHC, e ai decidi clicar no perfil e ver quem era. Quando entrei no perfil, o ouro foi encontrado, estava repleto de música boa — daquelas que você sabe que não são comuns. E, sinceramente, as melhores raridades quase sempre vêm desses usuários meio “fantasmas”. Os mais interessantes tendem a ser os mais misteriosos.
O que me chamou muita atenção é que GAS STATION COFFEE foge bastante da dinâmica clássica do footwork associado à Teklife, ao DJ Rashad, DJ Spinn, DJ Swisha ou Kush Jones — aquela coisa mais diretamente ligada às batalhas de dança em Chicago e o circuito de “DJ’s de festas” que costumavam fazer tracks com estruturas muito funcionais para o dancefloor. Também não se encaixa totalmente naquela primeira leva de “footwork nerd” que surgiu depois, muito associado a comunidades online, ao universo do Machine Girl, Ancetatina e Kaizo Slumber, essa é a uma estética mais hiperativa e caótica, muito mais Gen-Z. Aqui o clima é outro. A textura é diferente, o feeling é mais estranho, mais deslocado, mesmo usando muitos synths e melodias fofas, quase ingênuas, que ainda dialogam com esse imaginário nerd.
Passei bastante tempo escavando a comunidade da qual esse produtor parece fazer parte e percebi que existe uma nova leva de produtores muito jovens que vêm revivendo o juke e o footwork de um jeito bem mais experimental. É quase uma reinterpretação do gênero: as drums não seguem mais tão rigidamente aquele padrão 160 BPM quadrado, eles usam outros tipos de claps e 808s, os grooves são propositalmente descompassados, tem muito erro assumido, muito vazio estranho, melodias tortas, samples inesperados. Tudo soa mais solto, menos preocupado em “funcionar” e mais interessado em criar atmosfera. Isso me deixou genuinamente feliz, porque foi como descobrir um nicho inteiro de gente com a cabeça fresca, sem reverência excessiva ao passado, mas ainda consciente da história do gênero. Acabei ouvindo esse álbum do GAS STATION COFFEE e junto disso descobrindo vários outros projetos dessa mesma comunidade durante praticamente todo o ano de 2025.
O próprio nome Gas Station Coffee também me pegou muito. Não sei exatamente por quê, mas sempre tive uma obsessão meio esquisita por lojas de conveniência, especialmente aquelas de posto de gasolina. Acho que isso começou nas viagens de estrada pelo Brasil: parar em Graal de beira de BR ou em conveniências meio suspeitas no meio da madrugada, gastar dinheiro em besteira, pedir aquele café ruim de posto de gasolina (GAS STATION COFFEE), fumar um cigarro e ficar olhando pro nada, cercado por caminhões passando e cidades pequenas perdidas no interior. A música dele — e principalmente esse álbum — me trouxe exatamente essa sensação. Escutar isso foi como parar num posto qualquer às três da manhã: aquela aura de abandono, o barulho constante do ar-condicionado, carros passando na estrada, luz fria, tudo meio suspenso no tempo. Um espaço liminar difícil de explicar, mas muito familiar pra quem já viveu isso.
Eu realmente amei esse álbum. E acho importante também deixar registrados algumas faixas de outros artistas dessa mesma comunidade que valem muito a pena ouvir se você quer algo realmente novo e genuino, producers que estão ali fazendo música por amor, sem ligar pro ego, muitas vezes sem foto de perfil, sem outras redes sociais, e sem muita explicação. Tem muita coisa especial acontecendo ali, longe dos holofotes, mas cheia de ideias novas.
Wraith9 & Phantom Audio (Artista / Label)
Falando em 2025, um dos nomes que eu mais escutei e não posso esquecer de citar foi o Wraith9 e o selo Phantom Audio. O som dele me pegou muito porque revive aquela sensação de ouvir um bom cloud rap, tipo a época de Bones, Felix Lee, Uli K e Yung Lean, mas com uma cara bem UK e atual. Tem algo ali de melancólico, etéreo, meio enevoado, que me fisgou fácil.
Ele começou como produtor, e isso é um ponto importante. Produziu muita coisa foda pra nomes da nova geração do UK, principalmente EsDeeKid, fimiguerrero e EsDeeKid, vários sons que rodaram bastante durante o ano passado. Aquela tag “OK” que aparece em várias tracks desses caras, e que muita gente associa ao som do EsDeeKid ou do fakemink, é dele. É uma dessas tags simples que acabam virando identidade de cena, você escuta e já sabe de onde vem.
O mais interessante é que, depois de um tempo, ele começou a colocar vocais nas próprias músicas e escrever letras, e isso é raro de dar certo, Yung Gud vem tentando fazer isso e ainda nem chega perto desse nível. Na maioria das vezes quando producers tentam virar “rappers” fica forçado, mas com ele fluiu de um jeito muito natural. Em 2025 ele lançou o álbum Designer pela Phantom Audio, um disco curto, cheio de mood, onde ele controla tudo: beat, atmosfera, voz, sentimento. É aquele tipo de som que não chama atenção pelo impacto imediato, mas vai te puxando pra dentro aos poucos.
E dentro dessa mesma órbita da Phantom Audio, um artista que eu também escutei muito foi o Lancer. O som dele conversa direto com essa estética: UK rap mais introspectivo, beats bem texturizados, clima meio nublado, sem precisar forçar agressividade. Dá pra sentir que existe uma proximidade estética real entre eles, quase como se fosse uma cena acontecendo ali, mesmo sem ninguém ficar dizendo que é uma cena.
O que mais me pega no Wraith9, principalmente no projeto solo, é que ele faz algo que eu geralmente odeio quando gringo tenta fazer: cantar em inglês em cima de bases de funk ou só o fato de produzir funk. Normalmente sai sem sal, sem molho, completamente deslocado. Mas ele é um dos poucos que conseguiu fazer isso funcionar de verdade. Não soa caricato, não soa cópia.
A faixa “Earth” até me lembra muito um som muito foda do Anderson do Paraíso com o Paulin do G, parece bastante com funk de BH nessa coisa meio nebulosa.
No fim, ouvir Wraith9, Lancer e essa galera da Phantom Audio em 2025 me deu muito essa sensação de reencontrar algo que eu gostava anos atrás, mas reinterpretado de um jeito novo, mais maduro e muito bem produzido.
Explorers of the Internet (?)
Por um tempo, na minha visão, o TwerkNation28 era rei absoluto da maluquice no SoundCloud. Depois disso, veio a NaçãoRebolation69, que até hoje acho mais gigante, mais inexplicável, mais insanos do que a própria TN28 — coisa que poucas coisas conseguem ser. Só que ano passado eu descobri uns malucos que estão nesse mesmo nível de insanidade sonora, só que numa direção um pouco diferente: o Explorers of the Internet.
Diferente da TwerkNation, que é focada em Jersey Club, ou da Nação que está naquela vibe de funk e eletrônica brasileira, o Explorers of the Internet é aquele lado totalmente no meme, e que cai mais pra um lado caótico e absurdo do Dubstep/Brostep e do EDM — o tipo de coisa que eu nunca gostei antes, sempre achei chato ou cafona, mas no contexto deles aquilo tudo simplesmente vira genial, e eles também prouzem outros gêneros musicais malucos e não se limitam só nesse lado meio EDM Dubstep.
Ainda tô meio incerto se eles são um coletivo, uma dupla, um trio de trolladores/ DJs ou só uns produtores malucos com identidade escondida, porque não existe uma bio oficial clara nos lugares que eu encontrei. No site deles (saus.gratis) e no perfil do SoundCloud eles se apresentam como “curated by… few, loved by none”, com aquela vibe de piada interna e mistério proposital — tipo um coletivo de internet que joga os sons e deixa a galera pirar.
O que é foda é que eles pegam vários gêneros de uma forma ultra exagerada, brostep, EDM, Funk, coisas meio um cartoonzão, completo com drops absurdos, samples que parecem piada e nomes de faixas que são puro meme, e transformam isso numa coisa estranhamente viciante e engraçada. Tem EOTI tracks com nomes como Rocket Sex, Pressure x Take Over Control [FLIP], Bananaddadan e até sets completos como EOTI @ THE FISHBOWL (FULL SET) — tudo lançado ao longo de 2025 com aquela estética deliberadamente caótica.
Pra galera no Reddit que acompanha Dubstep, eles já aparecem como referência a “Explorers of the Internet sound” quando alguém descobre um ID misterioso e fala que só eles fazem aquilo — tipo aquele som que ninguém reconhece, mas que gruda na cabeça igual chiclete.
Ano passado, quando eu fui ouvir, aquilo me quebrou a expectativa de “Dubstep é cafona e chato”. Com esses caras o exagero daquilo que eu julgava tão ruim virou arte. Você não tá ouvindo música séria, não — você está ouvindo uma espécie de comentário absurdo sobre música eletrônica, um meme sonoro que funciona tão bem que dá risada e vira trilha do teu último ano. Tem faixas que soam como se alguém tivesse pego um synth enorme, ligado tudo no máximo e decidido “agora bota um drop que ninguém entende nada, só sente”! e os sets deles são bem divertidos, minha cabeça quando toco de ICQ BABY funciona meio parecido com essa palhaçada ai.
Então é isso: enquanto a TN28 era caos club e a NaçãoRebolation69 era caos funk/br, o Explorers of the Internet é o caos dubstep/ edm memeizado — um tipo de sonic fuckery que, no contexto deles, transforma tudo que eu sempre achei cafona em algo hilário, imprevisível e na real muito bom. Se tu entender o nível de maluquice e a forma como eles brincam com sons e expectativas, dá pra pegar a grandiosidade dessa parada. Foi uma das coisas que mais me tirou risada — e a cabeça também — nesse último ano.
Att,
Eric Alves | Agazero, DJ LHC, ICQ BABY, 177th, particulas ocultas

