O Náufrago Decolonial
à comparação com os virtuosos inatingíveis e à tentação de abandonar a própria voz
Oi pessoal,
Mais uma vez volto aqui para compartilhar algumas reflexões e coisas que ando escrevendo. Estou num pequeno hiato das pesquisas do Arqueologia Digital e de outras atividades mais densas do Poliedral, aquelas que demandam tempo e energia. Como contei anteriormente estou tirando umas férias não só das responsabilidades externas, mas também das que eu mesmo me atribuí.
Nesses dias, conversei bastante com meu amigo de longa data, Matheus Daniel — mais conhecido como mafius e e6c41, e também criador do projeto agito apático. Ele é, sem exagero, um dos músicos mais incríveis que já conheci. Mas, assim como eu, é um trabalhador brasileiro vindo da periferia — de Contagem, em Minas Gerais — que precisa lidar com as amarras do capitalismo para sobreviver. Hoje é livreiro em uma conceituada livraria de Belo Horizonte e está mais feliz com seu trabalho, mas até pouco tempo estava preso numa escala 6x1, anteriormente em Curitiba num trabalho bem pior.
Eu evito conversar com ele sobre a dureza da rotina, sobre esse nosso lado do trabalho e das nossas obrigações de sobrevivência, prefiro que nossos diálogos orbitem música e filosofia. E justamente em uma dessas conversas, buscando novos livros para esse meu tempo “off”, pedi indicações. Ele, que é de longe a pessoa mais “cabeçuda” que conheço quando se trata de literatura, me sugeriu três: O Náufrago de Thomas Bernhard, Fantasmas da Minha Vida e Realismo Capitalista, ambos de Mark Fisher.
Já tinha ouvido falar de um desses livros, mas nunca me aproximei. Talvez por ter erguido uma espécie de barreira ideológica contra a literatura branca, sobretudo a europeia. Ainda assim, dei uma chance e comprei os três. Sei que pode soar contraditório — afinal, já li O Capital de Marx, obras de Lenin e tantos outros filósofos e sociólogos brancos e muitos europeus que foram, e ainda são, quase guias espirituais na minha formação política. Porém, mesmo assim, boa parte da literatura branca europeia sempre me provocou um sentimento agudo de não pertencimento, uma dissonância profunda, tanto racialmente quanto em termos de realidade e classe social, no fundo sempre houve em mim um estranhamento, uma sensação indefinida diante de certas obras europeias, mesmo as de esquerda. Muitas vezes lia ensaios sobre dilemas do “primeiro mundo”, escritos por autores brancos, privilegiados, burgueses — enquanto eu, preto e periférico, vivia a realidade dura do sul global, um contraste que é um abismo, uma outra régua política, uma outra esquerda.
Por isso, nos últimos anos fui me aproximando cada vez mais de escritores e escritoras negras, cineastas negros, músicos negros, e priorizando visões de Brasileiros. Obras que não falam apenas de política como abstração, mas que atravessam a carne, o afeto e a memória — que devolvem a vida para além das categorias frias da academia branca. Li o Pátria Socialista ou Morte: marxismo latino-americano e caribenho, de Jones Manoel e Black Marxism, de Cedric Robinson, que me mostrou como o marxismo não pode ser pensado sem a contribuição e a insurgência negra. E, nesse mesmo movimento, fui me afastando de certos influenciadores da esquerda brasileira que antes eu acompanhava — a Soberana, o Ian Neves, o Gaiofatto. Hoje, minha escuta e meu aprendizado se voltam para outras vozes, principalmente: o Jones Manoel, o Chavoso da USP. São eles que, com diferentes ferramentas, articulam uma crítica de classe atravessada pelo corte racial, tem uma visão de esquerda radical que não tem medo de críticar essa esquerda moderada que eu odeio, e tem coragem de críticar esse governo atual do PT que flerta com o neoliberalismo, coisa que sempre senti faltar nos discursos “universalistas” que no fundo têm endereço branco.
Os filmes que vi — e os que fui juntando na minha lista — todos orbitavam a negritude. Dahomey, com a trilha assombrosa de Dean Blunt, abriu-se diante de mim como um chamado ancestral. O filme do Malcolm X, dirigido por Spike Lee, assisti como quem revê a própria história, mesmo sem tê-la vivido daquela forma. Revi também Cidade de Deus, agora com um olhar mais maduro, entendendo não só o cinema, mas a denúncia social que pulsa ali. Minha namorada, semanas atrás me levou a uma exposição poderosa sobre o Hip Hop, no Sesc 24 de Maio, onde encontrei registros do Partido dos Panteras Negras e lembrei que a luta política também é cultural — e que a cultura negra sempre foi trincheira de sobrevivência.
Nesse caminho, me reaproximei com uma urgência quase física da música brasileira preta, que ajudou a matar minha saudade do Rio de Janeiro, ouvindo muito samba e funk raiz — essa pulsação que não é só estética, mas memória coletiva, território e política. Recentemente, tenho me apaixonado pelos sons do Alee, jovem rapper da Bahia. Logo na primeira faixa do álbum Caos — o disco que me apresentou a ele — ele abre com um ponto de Ubanda de Zé Malandro: “E a malandragem corre solta lá no beco do cigano”. É um início que já traz o peso da ancestralidade, a religiosidade popular, a rua como espaço sagrado. Eu poderia passar horas tecendo elogios a esse cara que, para mim, é um dos maiores nomes do trap brasileiro na atualidade — ao lado do BK, claro.
A música que consumo, toco e faço hoje é, em sua esmagadora maioria — feita por negros ou enraizada em tradições negras. E por que essa reaproximação tão intensa? Porque percebi, com a clareza dolorosa de um osso quebrando, que durante anos estive afundado em cultura branca: europeia, americana, elitista. Eu estava cego, consumido, respirando referências que não eram minhas. E isso, descobri, não foi um acidente. Tem motivo. Tem origem.
Na infância, lembro bem, as referências que circulavam dentro da minha família eram negras. O Reggae, o Samba, o Funk, o Hip Hop. Essa era a trilha sonora do meu mundo. Mas a vida, com suas engrenagens perversas, me empurrou para uma experiência que explica por que me enfiei tão fundo em outro universo. Não sei se já contei aqui, mas acredito que sim: a história de como eu, um menino preto, estudei em escolas particulares de brancos playboys, quase toda a minha vida, sempre como bolsista.
O ápice disso foi no primeiro colégio particular onde eu estudei, que eu prefiro não falar o nome, era em São Gonçalo — minha pior experiência escolar, o epicentro do bullying que atravessou e marcou a minha adolescência inteira. Na minha sala, só havia eu de preto. Na escola toda, talvez uns três. Todos bolsistas, claro. E isso bem na quinta série — hoje, sexto ano do Ensino Fundamental II. Aquele início do “ginásio”, onde, pelo menos no Rio, já se convivia com adolescentes mais velhos. Nos intervalos, era uma massa de corpos entre 12 e 17 anos. Uma fase horrível — tenho grandes desconfianças de quem fala bem desse tempo de escola.
Esses adolescentes eram, em sua grande maioria, pequena burguesia. E alguns nem isso: eram apenas filhos de famílias que haviam conquistado uma pequena condição melhor. Sem nenhum pingo de consciência de classe. Filhos de pais que melhoraram de vida graças aos governos Lula, e que, porque agora tinham um Corolla 2005 e uma casa própria, achavam-se aristocratas. Coisas básicas — mas que, em São Gonçalo, pelo contraste, apareciam como símbolos de luxo. Assim nascia a mentalidade da “classe média” que se acreditava rica.
Esses adolescentes se viam como grandes empresários, empreendedores, donos do próprio meio de produção. Mas, na realidade, eram filhos de pequenos comerciantes, donos de bares, oficinas, mercadinhos. Que se os Pais param de trabalhar, ou por acaso esses negócios venham a falir, eles caem na miséria, eles não enxergam isso mas são frágeis e não fazem parte de uma classe alta da sociedade, eles tão bem mais perto de nós que somos classe Trabalhadora. Eles são uma pequena burguesia suburbana: arrogante, deslocada, sem qualquer noção da engrenagem que os esmagava tanto quanto a mim. E é curioso: a escola ficava no subúrbio, mas estava tomada por esses “playboys de subúrbio” que, talvez, fossem até piores que a elite tradicional. Porque carregavam não só o privilégio, mas também uma cegueira completa, e eu entrei nessa escola também para não me separar do meu melhor amigo de infância na época.
E é aqui que entra uma analogia que quero tecer com o livro “O Náufrago”, de Thomas Bernhard — um dos volumes que comprei por indicação do Mafius e que, neste exato momento, estou lendo. Quero incorporar, por alguns parágrafos, o jeito único do narrador de Bernhard para descrever essa amizade, como se estivesse transcrevendo um fragmento do próprio livro: a obsessão, a intensidade, a urgência silenciosa de cada detalhe, a sensação de que tudo está ao mesmo tempo carregado e desesperadamente próximo do absurdo, tal como era a relação com meu amigo, que aqui irei chama-lo de “F”:
Minha decisão de entrar naquela escola não foi uma escolha, mas uma consequência, a aceitação de uma órbita. Eu seguia o F, meu melhor amigo de infância, da mesma forma que o narrador de Thomas Bernhard se viu para sempre atrelado à genialidade de Glenn Gould. Ele era meu astro-rei, e eu, o satélite fadado a girar em seu entorno, uma órbita da qual eu não podia e nem sabia como escapar. Em público, para os outros e talvez para mim mesmo, eu tentava simplificá-lo com analogias fáceis: dizia que ele era meu Greg de Todo Mundo Odeia o Chris, mas a comparação era uma mentira confortável que aplacava a complexidade da situação. O Greg da minha vida não era apenas um parceiro de aventuras; ele tinha grana de verdade. Filho de engenheiros, imerso num lar branco e asséptico cuja presença em São Gonçalo era um mistério sociológico que nunca decifrei, ele era uma peça de outro quebra-cabeça, encaixada à força em nossa paisagem.
Aos onze anos, ele já dominava a física com a intimidade de um mestre. Branquinho, magrelo, protegido por óculos enormes, a própria encarnação da criança superdotada. E eu não sei, até hoje não sei se havia nele a síndrome de Asperger ou algo que o definisse, mas sua essência, ou o que eu pensava ser sua essência, era a de um nerd absoluto. E eu, seu amigo mais próximo, era a testemunha, o náufrago de seu talento. Mas não apenas o náufrago, eu agora entendo, eu era também o Wertheimer da nossa história. Porque eu também era talentoso, eu também tinha minhas aptidões, mas eu estava cego, completamente cego pela sua performance, convencido de que ele era fora do comum, incrível, quando no final ele era apenas branco e cheio de privilégios. Eram esses privilégios que o faziam ser melhor — o tempo livre, o quarto silencioso, o melhor lazer, a comida sempre muito boa na mesa sem preocupação. Era isso que o fazia melhor que eu em tudo, e eu, por consequência, me sentia atrasado, me sentia burro perto dele.
Nosso conservatório, nosso palco de Viena, era o universo dos jogos online, e ali a farsa se tornava mais evidente. Em League of Legends, ainda na Season 1 ou 2, ele compôs sua sinfonia de cliques e estratégia, atingiu o nível Diamante com a facilidade de quem dedilha uma escala aprendida em berço, enquanto eu me afogava nas profundezas do Bronze por não ter um computador com internet em casa, e tempo suficiente para a prática. Ele flertou com o profissionalismo, enfrentando titãs como BRTT com o desdém de um virtuoso para quem o maior desafio é o tédio. Em Mu Online, a partitura de seu sucesso era escrita com mais de 1500 resets; a minha, com meros 300. E essa matemática não era sobre genialidade: era sobre ter um computador que não travava, uma internet que não caía, horas e horas de pura ociosidade burguesa que eu não tinha. A lista de outros cinquenta RPGs e jogos online apenas repetiria a mesma melodia melancólica de sua perfeição fabricada e da minha distância real.
Na escola, a diferença era ainda mais brutal. Para ele, a matemática, a física, a lógica eram extensões de seu ser — um ser que teve todos os estímulos, todos os livros, todo o apoio. Para mim, eram montanhas a serem escaladas com esforço, suor e a frustração de vê-lo já no cume, simplesmente entediado, esperando pelo próximo desafio que seu capital pudesse comprar. Mas esse era o amigo que eu tinha. O meu Glenn Gould, cuja casa eu frequentava não só pela amizade, mas para ter um vislumbre daquele outro mundo, o mundo que o produziu. Era lá que eu tocava em um Playstation, que eu navegava em uma internet veloz, que eu usava um computador decente. A amizade com o F era isso: o afeto que me nutria e, ao mesmo tempo, a porta de entrada para a realidade que me esmagava.
E então eu entendi. Eu era o amigo, o admirador e, como na obra de Bernhard, o náufrago — aquele que, ao testemunhar a perfeição, compreende para sempre a própria limitação. Mas aqui, a limitação é imposta pelo racismo, pelo capital, perante a sociedade esgotada em seu último estágio de capitalismo tardio. E a perfeição, aquela perfeição que tanto me assombrou, ela simplesmente era ilusória.
Voltando ao caos, foi nessa escola que tudo começou, no meu primeiro dia naquele inferno. Lembro do meu cabelo grande, um black power de cachos fechados, sempre bem definido com Kolene. No primeiro dia, já me batizaram de “cabelo de cebola” — para eles, um motivo de riso, um bando de adolescentes brancos de cabelos lisos, finos, com franjinhas jogadas na cara, que jamais tinham convivido de perto com um preto. Talvez fosse a primeira vez que muitos tocavam um cabelo como o meu. Eles vinham da parte mais “arrumadinha” de São Gonçalo, alguns de Niterói, de condomínios fechados, casas grandes; eu morava nos acessos do Complexo do F1.
Sempre tímido, pacifista, escolhi a pior forma de reagir: me fazer de tonto, fingir que não escutava, baixar a cabeça, responder aos insultos nunca foi uma opção. Não demorou muito para que me tornasse a chacota oficial da escola. Tudo começou pelo cabelo e se expandiu para apelidos como “microfone”, por eu ser preto, magro, com cabelo black. E os apelidos não paravam. A coisa escalou para agressão. Era sempre seis contra um, eles andavam em bandos e a maioria era bem maior que eu, a Diretoria dessa escola era uma merda, meus pais cansaram de ir até a escola fazer reclamações, mas os Diretores tinham seus alunos favoritos, os brancos, os que tinham dinheiro e que os pais tinham alguma “influência”. No segundo dia, pegaram minha mochila e despejaram todos os livros num rio.
Choviam perguntas, insultos velados e explícitos: se meu tênis era falso, qual a profissão dos meus pais, quem tinha mais dinheiro, se eu ia para a escola “a pé”. Foi um batismo de fogo no racismo diário, uma humilhação constante. E ali permaneci por um ano inteiro, sobrevivendo a cada dia como quem atravessa um campo minado invisível.
E naquela escola, meu melhor amigo, que já era naturalmente excluído por ser nerd, tinha a sua própria turminha: outros nerds brancos que, de forma implícita ou não, não gostavam de mim. Se você já jogou Bully, vai entender a referência — a escola parecia um mapa vivo daquele jogo, cheia de “gangues”, cada qual com seu território e regras próprias. A dos nerds era a mais fraca, a mais ridicularizada, e mesmo ali eu não tinha como entrar.
Assim, até no grupo mais marginalizado da escola eu era um estranho, um intruso. Essa fase foi particularmente tensa para minha amizade com o F. Mas, com o tempo, superamos. Hoje consigo enxergar as motivações dele: andar comigo significaria enfrentar brigas todos os dias e se colocar contra seu único grupo de amigos, aquele em que já estava antes de eu chegar. Ser amigo de um preto na escola o transformaria em alvo — e ele, racionalmente, precisava sobreviver dentro da lógica cruel daquele microcosmo.
Nesse contexto, me apaixonei por uma menina da sala, a Gabi, que tinha um sobrenome francês e era uma verdadeira “emo colorida”. Muitos meninos a achavam linda — sim, ela tinha aquele padrão escolar de beleza branca —, mas ela fazia questão de não se parecer com as outras meninas da escola. Seu cabelo colorido lembrava os scene kids, e ela escutava de Cine, Restart, Cobra Starship, Cash Cash, Metro Station, Skrillex, Bring Me The Horizon, a Fresno… Eu gostava dela porque, mesmo sendo uma patricinha, ela escutava tudo que eu gostava meio que secretamente, e ainda carregava sobre si um ar de estranheza intencional: a emo fechada, de semblante preguiçoso, braço cheio de pulseiras de silicone pretas e coloridas, tênis All Star rabiscado de canetinha, colar de soco inglês e, às vezes, os Ray-Ban Wayfarer. Ela se mantinha à margem, rejeitando o convívio da maioria da escola, odiava o lugar e parecia se refugiar em sua própria estética e em amigos gays emos mais velhos, todos do ensino médio.
Quando consegui me aproximar dela, ela me apresentou a esse grupo, que se tornou um dos únicos círculos de amizade genuína que tive naquela época. Foi com eles que bebi vinho barato e fumei meu primeiro cigarro, e foi através deles que descobri bandas como Crystal Castles, Crim3s, S4LEM e o universo do Witch House — enquanto eu compartilhava minha especialidade da época nesse campo eletrônico, o Electro House, o Hardstyle, e meu freestep e shuffle, que encantavam os mais velhos. Alguns deles dançavam Tektonik e Vogue, e talvez era por isso que me abraçavam, me acolhiam.
Daquela galera, só tinha gente boa: fofoqueiros, sim, mas também afiados, sagazes, mestres do shade, que falavam mal de todos com uma língua afiada e uma percepção de mundo rara para adolescentes. Eu percebia que queriam ser populares, mas a escola nunca permitiu — e hoje entendo que essa postura era também um mecanismo de defesa. Eles já me salvaram de alguns bullyings por serem mais velhos e bem altões, eram magricelos, mas os “Bullyes” da quinta série tinham medo, coisas que vários meninos heteros que já tive amizade quase nunca fizeram por mim. Ao mesmo tempo, eles sendo muito mais velhos, do terceiro ano, às vezes sentia que não queriam me levar a todos os rolês; eu era o “pirralho” do ensino fundamental, recém-adentrando a adolescência. Mas eles, como eu, pertenciam a um grupo rejeitado, marcado pelo preconceito, e acabaram me acolhendo: valorizavam meu conhecimento das bandas emos, minha fluência na internet e minha dança.
Já a Gabi não se preocupava em ser popular — embora pudesse, facilmente, ter se tornado uma estrela da escola se mudasse o cabelo, abandonasse as mechas coloridas e suavizasse a maquiagem gótica. Mas ela não queria se adequar; via o resto da escola como algo meio cringe, normie, e buscava ser diferente, a rebelde, a singular — aquela personagem que a adolescência nos obriga a querer ser. Eu adorava esse tipo de garota; tinha uma paixão platônica intensa pela Mari Moon, VJ da MTV, e nela via uma mesma audácia.
Ela e seu grupo eram os únicos que me davam atenção, que conversavam comigo pelo MSN, que me tinham adicionados no Orkut, que interagiam no BuddyPoke e jogavam Habbo comigo (tirando o F, claro). Na escola, meu círculo se resumia a um amigo de anos que muitas vezes fingia que não me conhecia, uma amiga que me colocava na “friendzone” e tinha vergonha de falar comigo na frente das outras pessoas e quatro amigos gays do ensino médio que só andavam comigo quando queriam, porque eu era o pirralho do fundamental.
Dentro da sala, lembro que a Gabi não falava comigo — na verdade, não falava com quase ninguém, dormia durante a maior parte das aulas. Mas penso que essa distância era uma estratégia de sobrevivência, semelhante à do meu amigo F: se aproximar do rejeitado, do “cabelo de cebola”, do “microfone”, significava risco de ser alvo de bullying por associação.
Nos intervalos, ela sempre se isolava em um cantinho, lendo Crepúsculo. Um dia descobri seu esconderijo e comecei a ir lá diariamente. Inventava desculpas para passar pela secretaria, pegar um café, cruzar o pátio e dar um “oi”. Foi assim que, pouco a pouco, conquistei a sua proximidade. Até que um dia ela me chamou para ficar por ali e passou o intervalo inteiro conversando comigo. E foi nesse espaço secreto, longe dos holofotes dos idiotas da escola, escondida atrás de árvores que margeavam o pátio, que ela falava comigo de verdade, me tratava com atenção e gentileza, mostrando que por trás da postura fechada havia um universo inteiro de afeto e liberdade que ninguém mais podia tocar.
E aí, meus amigos, aí residiu o meu erro — meu grande erro. O primeiro: me apaixonar por essa menina, por ter caído na ilusão ingênua de que ela era a única que me oferecia uma migalha de atenção, e nem parava pra analisar o fato de que ela não falava comigo perto de outras pessoas, eu me contentava com o mínimo de afeto que eu recebia, e isso, sozinho, já foi suficiente para eu me apaixonar. O segundo: eu acreditava que, por ela ser “emo”, jamais se interessaria por mim do jeito que eu era — por eu ser preto, por não ter aquele cabelo liso da moda. Naquela época, no Rio, quem dominava a estética eram os screamo, os emos coloridos e os Playssons, os meninos do Bonde da Stronda, o estilo swag do Justin Bieber, Zac e Code da Disney, Drake Bell da Nickelodeon. Beleza negra? Quase não existia no hype. Tudo que era de preto parecia invisível ou, pior, inadequado.
E assim, entre rejeições e padrões impostos, minha adolescência se tornou um desastre que deixou marcas profundas — sequelas que carreguei como um espectro, cujos estragos venho tentando reparar até hoje. Por pouco não me perdi ainda mais, caminhando para um lugar sombrio, para armadilhas da solidão e da raiva que poderiam ter me transformado em um incel ou, quem sabe, em algo ainda mais extremo, como um “School Shooter”.
E voltando à Gabi, ela e os gays brancos emos que conheci foram minha porta de entrada para um milhão de culturas brancas. Não os culpo — era só a vida me empurrando para mundos que não eram meus — mas era engraçado: eu me sentia como o Latrell em As Branquelas, cantando todas as músicas das branquinhas emos. Naquela época por volta dos meus 12 anos meu estilo ainda era bem indefinido, era uma mistura de emo, rap, punk, raver, skatista e mesclava muita coisa; ouvia muito Rap mas também gostava muito de Rage Against The Machine, CPM-22, Scracho, Dibob, Forfun, Linkin Park, Charlie Brown Jr, ouvia muito funk proibidão, Electro House por causa do freestep, mas eu também tinha um lado que mergulhava em Avril Lavigne, Carly Rae Jepsen, Paramore, Lady Gaga, Sixpence None The Richer e até RBD. Parte disso vinha da paixão, parte era tentativa de aproximação — é engraçado admitir agora, mas sim, eu gostava de muitas dessas coisas, mesmo que me envergonhe de confessar, mas a maioria era só pela Gabi.
Hoje entendo que meu gosto por essas músicas, muitas vezes vistas como “coisa de menina” pelos outros garotos, tinha raízes mais profundas: cresci com uma irmã, que desde pequenos assistiamos a MTV e Mix TV, pois esses eram canais que tinhamos na TV aberta, ela também era muito Fã do Restart, ela tinha um autografo do Pe Lanza etc, e também era do fandom do Justin Bieber, foi uma “Belieber” daquelas insuportáveis, mas juntos nos encantávamos pelo que passava nesses canais, que também empurrava cultura branca na nossa cara. Na época, cantoras como Lady Gaga, Gwen Stefani, bandas como My Chemical Romance e todas as meninas emos estavam no auge, e essa vivência compartilhada em casa me moldou, me deu familiaridade com uma estética feminina que atravessava a cultura pop branca, e que mais tarde me acompanharia na escola e nos meus primeiros contatos com esses mundos que não eram originalmente meus.
No meio do ano letivo, decidi alisar o cabelo com guanidina, um produto que queima o couro cabeludo e fede pra caralho, na esperança de que o bullying com meu “cabelo de cebola” diminuísse e, quem sabe, que a Gabi me visse de outra forma. É curioso, porque ao assistir Malcolm X semanas atrás, me vi inteirinho naquelas cenas de juventude: o sufoco de alisar o cabelo, a queimação do couro cabeludo, a dor autoimposta por uma ilusão adolescente. Fui burro, me deixei levar pelos padrões de beleza brancos, pela música de branco, pela ideologia de branco. Eu era considerado feio porque internalizei essa feiura como um projeto — uma pedagogia cruel de embranquecimento que me obrigava a rejeitar meus próprios traços.
O tempo passou. Vivi anos alisando o cabelo, fazendo progressiva, chapinha, indo ao salão, editando minhas fotos no Photoscape, tentando clarear a pele, me enturmando com gente que quase me capturou para ideias anarcocapitalistas. Tive a sorte de ter uma família de esquerda que me deu limites quando cheguei em casa com essas ideias tortas; sem eles, talvez não tivesse sobrevivido a essa fase. Eu ainda me fotografava com os lábios “para dentro”, tentando afinar a boca — um dos traços mais bonitos que tenho — e tudo isso era horrível. Demorei anos para perceber, me libertar e resgatar minha própria imagem.
E no fim, a Gabi nunca me deu um beijo. Acho que, depois de uns quatro anos, ela se assumiu lésbica; lembro de ter visto isso no Facebook, numa stalkeada que parecia inevitável.
No fim do ano letivo, paramos de nos falar quando saí daquela escola. Foi melhor para mim: deletei todo mundo daquele lugar, meu mecanismo de defesa, um gesto que até hoje reconheço como sobrevivência. Em algumas sessões de terapia, esse capítulo da minha vida já foi muito explorado, e o mais curioso é que, na escola seguinte, me apaixonei por outra menina — minha primeira namorada. Por ironia do destino, ela também era emo, tinha cabelo colorido, lembrava um pouco a Gabi, mas com muitas diferenças, essa não tinha vergonha de mim, e começamos a namorar poucos meses depois de eu adentrar essa nova escola, mas no fim ela acabou se assumindo lésbica na sétima série. Circulou um rumor horrível de que ela me teria traído com outra garota da escola e terminado comigo por isso.
Aí começou a “temporada 2”: a mudança de escola trouxe um bullying 2.0, onde as piadas eram ainda mais pesadas — eu era o “corno”, o homem tão ruim, feio e fraco que a menina teria escolhido mulheres. Coisas pesadas, os adolescentes reproduziam missoginia, homofobia, racismo, tudo de ruim que você possa imaginar, mas com muita ajuda consegui superar isso tudo. Hoje, lembro dessas situações e dou risada, reconhecendo o quanto a vida foi cruel comigo na adolescência. Sei que as raízes disso estão no capitalismo, na importação de padrões culturais europeus e americanos, no racismo estrutural, e em tantas outras camadas que me atravessaram. Talvez também houvesse uma pitada de culpa minha: alguma atração bizarra por garotas não heteros, emos, de cabelo colorido — um campo de armadilhas afetivas em que, por osmose, eu acabava me enfiando, mas depois que eu fiquei mais velho superei totalmente isso. Resumindo: no amor, não tive sorte, e o preço disso me acompanhou por anos.
Meu primeiro choque de realidade só veio quando saí das escolas particulares e fui para o ensino médio na pública. No primeiro ano, ainda carregava aquele cabelo alisado, já não mais a franja emo: era a tentativa de parecer com Zayn Malik do One Direction, com um topete ridículo, calça skinny e tênis de emo. Porém nos primeiros dias, conheci um mano que mudou tudo: Victor, vulgo Sapão, hoje conhecido como VBRVCK. Um gigante de 1,90, gordão, preto retinto, com um black power imenso, maconheiro brabo, skatista, rapper, cheio de consciência de classe. Para minha surpresa, o respeito que ele impunha era imediato — ninguém o mexia, todo mundo sabia: aquele era um mano com moral, eu nunca tinha visto isso nas escolas particulares de onde passei pois ele era o combo do Bullying perfeito em qualquer escola de brancos.
Naquele momento, também senti que algo começava a mudar para nós, pretos adolescentes atravessando a fase de 2008 a 2014. A onda emo e o rock brasileiro estavam morrendo; Rap e Trap começavam a ascender cada vez mais. Surgia o Bloco 7 no Rio, o Néctar Gang, e movimentos assim tomavam conta das ruas e da cena. Pouco antes de conhecer o Sapão, em 2012/2013, eu, que sempre fui viciado em rap apesar da aparência de emo herdada do ginásio, já estava mergulhado em Odd Future, Tyler, the Creator (graças a um clipe na MTV), amava Lil Wayne, e me perdia no SoundCloud ouvindo Black Kray.
Mas foi no ensino médio que me reencontrei de verdade com o Rap e a cultura negra: Racionais, Sabotage, Marcelo D2, MC Marechal; e, mais além, Quasimoto, MF DOOM, Gang Starr, Nas, Wu-Tang Clan, 2Pac, Dr. Dre, Snoop Dogg, LL Cool J — artistas que eu já conhecia na infância, através da trilha sonora dos Tony Hawk’s Pro Skater e dos DVDs piratas “Video Traxx” e “100% Hip Hop” que meu pai comprava no camelô. Foi nesse período que percebi o poder de pertencer a algo maior, uma cultura feita por nós, para nós, e que finalmente falava na carne, na memória, no afeto.
Hoje sinto que, quando criança, eu amava muito mais o Hip Hop o funk e tinha muito mais influências Negras do que o Rock Emo Branco, mas hoje entendo que foram fases que acabaram sendo impostas pelo ambiente das escolas particulares em que estive. Eu cantava sem parar aquelas músicas dos DVDs piratas Video Traxx, e é curioso que o primeiro CD que comprei na vida foi o do Linkin Park com Jay-Z — eu devia ter uns oito anos. Essa memória me faz perceber tabém que sempre vivi nessa linha tênue entre o Branco e o Preto, entre o “rock do branco” e o Rap dos pretos. Talvez isso venha da minha própria origem: mãe “branca”, pai preto, sempre flutuando nesse limiar, e desde cedo sentindo o peso do colorismo — pele clara demais para ser considerada preta, escura demais para ser aceita como branca.
Mas quando criança, sem dúvida, minha alma estava no Rap e no Funk. O resto, toda essa confusão de identidade musical e cultural, só começou aos doze anos, naquela maldita escola. Mas foi no ensino público, que conheci pessoas como o Sapão, o Marcos Kennedy — hoje literalmente é famoso como um sósia do The Weeknd — e o Franklin Dum Dum, um imigrante nigeriano, todos eram da minha mesma sala durante os 3 anos do ensino médio. Esses amigos foram fundamentais para abrir meus olhos: todos eles carregavam a certeza de que ser preto era foda, nos cumprimentavamos de “my nigga”, faziam aqueles apertos de mão de jogador de basquete, e era ao mesmo tempo engraçado e libertador.
Lembro especialmente do Nelly, o mais “Aura” de todos: 2,06m, retinto, jogador de basquete na base do Flamengo, Nike Air Force 1 branco impecável, dreads, sorrisão foda, dentes perfeitos, sempre perfumado, carísma insano e presença marcante. Ele era um “nego doce”, mas com ele e os outros negrões da escola pública, finalmente senti algo que nunca havia sentido antes: pertencimento. Diferente da Gabi, do F e dos gays brancos que conheci que viviam outro mundinho, esses amigos eram pretos, moravam em lugares bem ruins, e estavam longes de serem ricos, lidavam com problemas parecidos com os meus, e era impossível não me identificar. Pela primeira vez, eu sentia que a negritude não era um peso ou um detalhe de diferença, mas uma força, um abraço coletivo que me dizia: nós somos fodas, e juntos resistimos.
Essa escola ficava em Niterói, e lá o cenário era outro: tinha uma galera envolvida com pixação, graffiti, break, gente que tinha parentesco com o Black Alien, vários crias do Morro do Estado e do Morro do Palácio. Muitos vinham de famílias atravessadas pelo tráfico, outros tinham pais que já tinham corrido junto com rappers do Quinto Andar. Foi ali que minha vida tomou outro rumo. Ali eu perdi a vergonha de assumir o que sempre esteve dentro de mim: meu amor pelo rap, pela cultura Hip Hop. A verdade é que eu tinha passado parte da vida reprimido, não porque não gostava, mas porque não tinha conhecido as pessoas certas. E quando finalmente conheci, algo virou dentro de mim.
Raspei o cabelo alisado, abandonei o topete ridículo que tentava imitar Zayn Malik, e comecei a usar o disfarçado, o corte do jaca. Passei a usar bonés da New Era, fui atrás do meu Air Force 1, e deixei de lado aquele estilo emo que nunca me representou de verdade. Finalmente me permiti ser quem eu era, e penso até hoje que, se tivesse estudado em escola pública desde o começo, muita grana que gastei em terapia teria sido poupada.
E não, não coloco na conta da Gabi ou das gays brancas o fato de eu ter gostado de música de branco. Eu gostava e ainda gosto de várias daquelas bandas emos — não nego. Sempre fui eclético, aberto a todo tipo de som. O que mudou não foi o gosto, mas a consciência. Hoje entendo que o problema nunca foi ouvir Avril ou Paramore, mas sim o peso do racismo e da opressão que me impediam de assumir minha negritude. O que antes era medo, hoje é escolha consciente: sigo ouvindo artistas brancos, sim, mas agora sabendo de onde venho, com muito mais consciencia política e entendendo qual é a minha raiz.
Passou um tempo do ensino médio e, por muito tempo, eu só andava com a galera do rap, a galera meio Black Twitter do Rio. Ia em batalha de rima, no Baile do Ademar, nas festas do Bloco 7 no Antonieta — só andava com preto. Ao mesmo tempo, na internet, eu estava muito envolvido com a comunidade de produtores do SoundCloud. Foi nesse ambiente que, em 2014, comecei a produzir a música que me molda até hoje. Entrei pelo Trap, mas não o convencional: mergulhei no Cloud Trap, carregando a influência de Chris Travis, MexikoDro, UV Boi (skin on skin), Night Lovell, SpaceGhostPurrp, Black Kray e também de vários brancos suecos — Yung Lean, Grxgvr, DJ Smokey, Yung Sherman, Mssingno. Só que, então, aconteceram vários atritos ideológicos que deram uma reviravolta na minha vida. Percebi que só andava com homem cis hétero, sempre naquele meio de cara que pagava de trapper, rua, bandido, gangsta, skatista, os caras saiam na porrada direto na rua etc.
Em certo momento, comecei a sentir que nunca me identifiquei com o lado torto do pensamento daquela galera, com a misoginia, a homofobia, a transfobia que circulavam ali, na real eu nunca tinha me esquecido dos 4 gays brancos que foram meus amigos e me acolheram naquele inferno de primeira escola particular onde eu estudei, e esse pessoal do trap que eu andava fazia piadinha homofobica quase que o tempo todo, e desde cedo eu já tinha a mente muito desconstruída em relação a isso e acabava discutindo com eles quase sempre. O meio em que eu estava naquele momento era repleto de coisa errada, um ambiente extremamente machista: vira e mexe era trapper batendo em mulher, trapper transfóbico, só coisa feia. Quando comecei a enxergar isso, foi também o momento em que passei a me aproximar de outros artistas — Elysia Crampton, Sophie, Arca, Malibu, Toxe, Mechatok, o selo STAYCORE117, a PAN — nomes da música experimental, do ambient e do deconstructed club. Em sua grande maioria, vinham da cena queer, o oposto do universo trap em que eu estava mergulhado, mas que, paradoxalmente, não estava tão distante assim do Cloud Trap. Tanto que já contei por aqui como conheci a Oklou: foi num rolê cheio de boys “cloud trappers” da Team Sesh, na Drip Fest, coletivo do rapper BONES.
Mas sim, esse foi mais um choque de realidade, mais um deslocamento. Saí do coletivo de soundcloud trappers, do qual fazia parte, justamente por não compactuar com seus ideais e com um lance de ser um coletivo fechado só de boy hétero, e logo depois me aproximei do selo de música experimental TORMENTA. Passei a frequentar festas como a Sad Rave, a cena de Techno como a Mamba Negra e as festas de House, conheci Viviane Lee, Ikaro Cavalcanti, Luara Perdonatti, Enco, Aun Helden, Suzy Salaminho, Pininga, Mlkbrutal, Metanfetanini, Sarah Blue, Yan Higa, Ray Castelo, CEMFEIO, Gabriel Massan, entre outras pessoas. Foi naquela época poucos anos antes do ano que rolou o festival YAGA, muitas dessas figuras que eu tinha conhecido estavam atreladas à arte, sobretudo à performance e a música experimental. Quando adolescente, eu sentia que minha ideologia ditava meu estilo, definia com quem eu deveria andar — minha moleira ainda não estava fechada, e cada descoberta que fazia sentido era um trânsito, uma migração. Mas a cena Experimental e Queer acabou sendo a última na qual eu me ancorei. E acredito que ainda hoje é a que mantenho maior proximidade, porque foi, mais uma vez — assim como na escola, quando eu tinha 12 anos — a que mais me acolheu, mesmo eu sendo um boy hétero.
Foi ali que entendi uma coisa: quem me acolhe sempre são as minorias, a comunidade LGBTQIAP+ e os pretos. No entanto, mesmo nesse acolhimento, às vezes eu me sentia deslocado por várias questões. E até hoje carrego essa sensação de não pertencimento. Acho que está tudo bem: entendo a complexidade das bolhas em que me enfio e reconheço que, querendo ou não, sou de fato um boy hétero cis — talvez desconstruído pela minha história de vida, mas ainda assim alguém com grau de privilégio nesse meio, com a exceção do fato de ser preto.
Mas depois que adentrei nesse mundo de novas amizades e visões, algo que eu pensava ter superado lá atrás voltou a me assombrar: comecei a me embranquecer de novo. Não a ponto de alisar o cabelo, mas fui me envolvendo cada vez mais com artistas brancos da música ambient e da eletrônica experimental, me aproximando de um gosto “conceitual”, de certa arte e moda que orbitavam em nichos dominados por brancos e por gente de classe média alta. Percebi que, em São Paulo, eu só circulava na maioria com pessoas brancas. E rolava uma situação curiosa: muitos dos meus amigos gays, ou até pessoas que não me conheciam direito, me chamavam de queer bait. Isso porque minha convivência nesse meio foi moldando meu jeito de falar, de agir; deixei de performar aquele machinho gangsta e por convívio com esse meio e comecei a sem querer soltar um “Tuuudo”, um “Mona”, um “Bofe”. Não tinha nada a ver com minha sexualidade, mas sim com o ambiente em que eu estava inserido, eu nunca tive dúvidas de que eu era Hetéro, então não via problema algum de falar várias gírias do dialeto Pajubá.
A questão é que eu nunca encarei essas associações como ofensa. “Gay” ou “Queer Bait” jamais foi xingamento pra mim. Pelo contrário: as melhores pessoas que passaram pela minha vida são trans, gays, não-binárias. Minha masculinidade nunca foi frágil, e talvez por isso sempre fui bem recebido nessa comunidade. Diferente da maioria dos boys héteros que conheci, eu nunca tive medo de ter amigos LGBTs, de abraçar, viajar junto, conviver de igual pra igual. Enquanto isso, os caras daquela época do trap, da rua, do skate — todos muito presos à masculinidade tóxica — achavam estranho me ver andando com “essas pessoas”. Muitos deles faziam piadas homofóbicas pelas minhas costas, e esse tipo de atitude só confirmou que eu estava certo em me afastar.
Hoje, olhando com um senso mais crítico, entendo que esse novo “embranquecimento” que sofri, não foi só questão estética ou de gosto musical. Ele é reflexo de uma estrutura social que coloca o capital cultural nas mãos da branquitude. O mundo da arte e da música experimental, ainda que transgressor na superfície, muitas vezes reproduz os mesmos filtros de classe e de raça que estruturam a sociedade capitalista. Não é à toa que esses espaços são majoritariamente ocupados por brancos de elite: porque a própria produção, circulação e legitimação cultural estão atravessadas por relações de poder e de exclusão. O que parecia apenas uma mudança de estilo, na prática, era também uma evidência de como a cultura pode nos embranquecer quando não estamos atentos — e como, mesmo em ambientes ditos “progressistas”, a desigualdade racial e de classe segue marcando quem pertence e quem está sempre deslocado.
A música eletrônica está lotada de brancos playboys — e a experimental, a conceitual, a ambient, mais ainda. É um meio hegemonicamente branco, e em São Paulo travei mais uma batalha interna para encontrar um lugar dentro dessa bolha onde eu pudesse me reconhecer também racialmente. Foi então que o universo colocou Ashland Mines na minha vida — o Total Freedom, o Bobby Beethoven, o big gay dj idiot. Ele, que hoje considero como um pai, foi quem, junto de outros, me apresentou a uma constelação de artistas pretos dentro desse mesmo território experimental: Chino Amobi, Kelela, Lafawndah, Yves Tumor, Shygirl, Asmara, Lauren Duffus, Blood of Aza, Venus X, Daemon, Cedric Madden, Ecco2k, Yayoyanoh… nomes que foram farol, que me tiraram da escuridão de um circuito onde só enxergava brancos europeus, e que finalmente me deram afinidade étnica, pertencimento, espelho. Pude conhecer muitos deles pessoalmente, e isso foi como respirar depois de muito tempo submerso.
Logo depois que Ashland entrou na minha vida, passei anos mergulhado numa busca obsessiva por artistas pretxs brasileiros que estavam fazendo música eletrônica por aqui. Foi assim que conheci Kontronatura, Kabulom, BADSITA, Yaminah, EVEHIVE, RHR, Aya Ibeiji, AK1N, Sodomita, o coletivo Mariwô, entre vários outros — todos absurdamente talentosos, muito acima da imensa maioria dos gringos brancos, hoje eu dou muito mais valor pra qualquer uma dessas pessoas do que pras minhas antigas referências.
E então volto ao começo, ao motivo de escrever tudo isso: envelhecer é perceber que o que antes era nebuloso hoje se revela com uma nitidez quase cruel. Quando mergulhei em O Náufrago, do Thomas Bernhard — livro que o mafius me indicou — e li a história dos três pianistas, tive uma epifania. Por tanto tempo, me senti lixo, inútil, fracassado, por me comparar a pessoas brancas. Os brancos da música experimental e do ambient eram meus “Glenn Goulds”, meus virtuosos inalcançáveis. Eu ouvia Dark0 e pensava: nunca vou ser igual. Eu ouvia Mssingno e concluía: nunca vou chegar lá, (e ano passado ele remixou uma música minha e disse que era meu fã) Escutava Malibu, Umru, iglooghost, Quit Life, Himera, Yawning Portal e dizia a mim mesmo: nunca vou compor algo tão bonito. Até com meu amigo F, de infância, eu sentia isso — uma régua impossível de alcançar.
A diferença é que, no meu caso, esse peso nunca foi só estético ou técnico, mas profundamente político e racial. Hoje, tento fazer o exercício de desapego, de quebrar esses paradigmas. Penso: sim, Aphex Twin é foda, Susumu Yokota é foda, Burial é foda, Boards of Canada é foda, 2hollis é foda, Marina Herlop é foda, Björk é foda, Oklou é foda, Malibu é foda — todos fodas. Mas pergunto: de onde veio essa gente? Em que condições nasceram? Quais privilégios tiveram? Muitos cresceram em países de primeiro mundo, com escolas de música absurdas, acesso fácil a equipamentos, políticas culturais robustas. Quando estive no Japão, percebi como os recursos estão disponíveis. Um amigo na Suíça me contou que não precisava trabalhar porque o governo lhe garantia milhares de euros por ser estudante de música. Como eu, um artista preto brasileiro, vou me comparar a isso?
Essa é a pergunta que nós, como brasileiros — sobretudo quem tem vivências semelhantes à minha — precisamos nos fazer SEMPRE. Parar de alimentar a síndrome de vira-lata. Porque nós somos fodas. A música brasileira é foda. O funk brasileiro é foda. O afrobeat e o amapiano são fodas. O reggae jamaicano é foda. A música do Oriente Médio, da Índia, da periferia global é foda. Nossos corpos e nossas vozes produzem cultura com a força da sobrevivência, não do privilégio.
Minha régua, hoje, já não é mais a régua da branquitude europeia. Passei a medir a mim e aos meus pelo que produzimos apesar de tudo, contra todas as condições, no meio do caos capitalista e do racismo estrutural. Esse é um exercício de descolonização da escuta, mas também da alma — e ele é absolutamente necessário. Porque no fim, não é só sobre estética, é sobre política, é sobre raça, é sobre gênero, é sobre classe. E é sobre reconhecer que a nossa música, a nossa cultura, a nossa existência são tão grandiosas quanto qualquer Glenn Gould, qualquer Aphex Twin, qualquer Burial, qualquer ídolo branco que o capitalismo superestimou e tentou colocar como insuperável.
Essa é a chave: não se trata de tentar ser “como eles”. Trata-se de ser nós — pretos, indígenas, periféricos, brasileiros. Nossa arte, por si só, já é revolução. Hoje vejo a nossa música como algo que o mundo inteiro deseja reproduzir, porque ela nasce da dor e da resistência, e nós temos o molho que nenhum branquelo europeu jamais vai ter. E é preciso dizer sem medo: estamos muito acima de qualquer povo colonizador.
Dito isso, basta de endeusar gringos brancos do primeiro mundo e os demais filhos do privilégio — a bússola deles sempre apontou para cá.
Att,
Eric Alves | Agazero, DJ LHC, ICQ BABY, 177th, particulas ocultas

